Os Salafistas, o apocalipse e a Jihade.

» Posted by on 20 20UTC janeiro 20UTC 2015 in Blog | 0 comments

VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 5.5/10 (2 votes cast)

Para termos sucesso no combate aos terroristas devemos conhece-los o melhor possível. A atual beligerância é fruto de uma crença milenar que faz da Síria o campo de batalha onde acontecerá a luta final entre o bem e o mal, anunciando a volta do messias e a conquista de Jerusalém, a nova Meca.

 

Abou Bakr albaghdadi

Abou Bakr albaghdadi

Nota: Antes de começar esse texto gostaria de chamar a tenção para o fato de que vejo muita gente usar o termo islamista de forma equivalente ao termo cristão ou judeu. O que equivale a cristão ou judeu é o termo muçulmano. Islamista é o proselitista, é o radical  que quer islamizar o mundo.
 

 

A cerca de dois anos assisti a uma conferência sobre a jihade (guerra santa), na Université Libre de Bruxelles,  onde tive a oportunidade de escutar dois especialistas em islã e islamismo (Jacques Rifflet[i] e Frédéric Pechon[ii]). Eles falavam de uma profecia apocalíptica de muito peso no mundo islâmico e que, segundo eles, justifica essa atual efervescência jihadista perpetrada pelo Estado Islâmico (E.I) e possivelmente pela seita Boko Haram.  Para esses fiéis de maioria salafista, o fim do mundo se aproxima.

 

Está escrito que o combate entre o bem e o mal acontecerá na Síria, designada por profetas muçulmanos como o local previsto para a volta do profeta Isa (Jesus), que instaurará uma paz de sete anos (quarenta, segundo outras interpretações), se casará e morrerá antes de completar 40 anos de idade. Ao longo desse período conturbado, onde os muçulmanos deverão enfrentar o anticristo (Ad-Dajjâl, O Impostor) eles se separarão, com alguns deles se unindo aos cristãos, para em seguida se reagruparem em torno da batalha final, o Armagedon, (Malhamah Kubra, em árabe). Será o apocalipse (em grego, revelação) largamente difundido pelas escatologias judias e cristãs, porém interpretado de uma maneira um pouco distinta.

 

Em 13 de junho de 2013, no Cairo, dignitários sunitas conclamaram todos os muçulmanos adultos para a jihad na Síria, assegurando que era chegada a hora de cumprir um pré-requisito importante para a concretização de uma profecia muçulmana que prevê o retorno do messias. Seria a tomada da Palestina e o retorno de Jerusalém ao seu devido posto de terra sagrada, título até hoje pertencente a Meca mas de forma provisória.  Um ano depois, em 29 de junho de 2014, outro grande passo. O iraquiano  Abou Bakr albaghdadi, ex membro da facção irmandade muçulmana, se apresenta como sendo descendente direto do profeta Maomé e se autoproclama califa (uma espécie de papa, aquele que ocupa o trono outrora ocupado por Maomé). Albaghdadi já “reconquistou” as regiões pertencentes aos califados históricos de Omeyyade e Abasside, na Síria e no Iraque. Ele publica uma revista de propaganda que porta um nome bem eloquente para o mundo islâmico: Dabiq, nome de uma região da Síria onde em 1516 o sultão otomano Selim I venceu os mamelucos dando posse ao também autoproclamado profeta Ibrahim que estendeu o império otomano através da Síria e do Egito. Será lá que segundo a escatologia muçulmana acontecerá a batalha do fim do mundo.

Depois de quinhentos anos de espera, Dabiq volta a simbolizar a vitória do islã. Segundo algumas profecias o reestabelecimento do califado, suprimido somente em 1924 pelo turco Mustafa Kemal é um pré-requisito à vitória definitiva do islã que será, na realidade, a vitória de toda a humanidade, colocada finalmente na boa direção graças ao islamistas. Essa profecia habita o imaginário de grande parte dos jihadistas que creem que estão travando um combate contra o mal. É por isso que a Síria tornou-se um lugar de extrema importância.

 

Jeronimo Freitas

(21/01/2015)

[i] Jacques Rifflet: Jornalista e cientista político e especialista em religiões, autor de várias obras sobre o gênero, entre elas um compêndio de religião comparada, Les Mondes du Sacré, que aprecio enormemente.

[ii] Frédéric Pechon : Cientista político e pesquisador da Université de Tours e autor de um excelente livro sobre islamismo: Syrie, Pourquoi l’Occident s’est trompe (Síria, porque o ocidente se enganou).

Os Salafistas, o apocalipse e a Jihade., 5.5 out of 10 based on 2 ratings

Postagens relacionadas:

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.

ChatClick here to chat!+

Featuring Recent Posts WordPress Widget development by YD